sábado, 18 de abril de 2009

Política e Ética

RESUMO

Uma avaliação da união entre ética e política na Antigüidade e seu distanciamento nos tempos modernos através de uma investigação do pensamento Aristotélico acerca da razão, a ética e a política e a relação entre as mesmas na busca da felicidade, bem como a relação entre razão e moral no pensamento modernista.

 

Palavras-chave:       Ética, política, razão, pólis, moral, Aristóteles, Kant.

 

INTRODUÇÃO:

Desde as primeiras tentativas à elaboração de teorias da política, arraigadas na Democracia Ateniense, o homem pelo uso da razão, tem desenvolvido as regras para a vida na pólis, ou seja, na sociedade da qual faz parte. O estudo da relação, às vezes tempestuosa, entre a ética e a política desde a Antigüidade até os tempos modernos é uma viagem fascinante que passa pelo estabelecimento e quebra de paradigmas em cada geração. Numa breve reflexão sobre a aproximação e o afastamento que caracterizam essa relação, o presente texto examina apenas dois aspectos desse trajeto.

 

1. A RELAÇÃO ENTRE RAZÃO, ÉTICA E POLÍTICA EM ARISTÓTELES.

Para compreender a relação entre razão, ética e política na Antigüidade e as implicações dessa relação, é necessário contextualizar os componentes.

Seguem definições colhidas de diversas fontes:

v     Razão (logós) – Considerado por Descartes a faculdade “de julgar de forma correta” (Discurso do Método, p.1), pelas finalidades da presente investigação define-se como:

o        Razão prática – “a capacidade de argumentação ou inferência demonstrativa considerada na sua aplicação à tarefa de prescrever e escolher comportamento”. [1]

o       Razão teórica – “a faculdade relacionada com a verificação da verdade de qualquer tipo”.[2]

 

v     Ética (êthos/éthos) – O conceito por trás da palavra moderna é baseado no duplo significado no original grego. Êthos – escrito com a letra inicial ‘eta’ utilizado para descrever o ambiente no qual vive o homem, o modo de ser no qual se sente bem e, Éthos – escrito com a letra inicial ‘épsilon’ sendo este o conjunto de hábitos e costumes, o comportamento habitual do homem. [3]

v     Política (politikós) – Uma palavra que possui diversas definições ligadas à mesma finalidade, ou seja, a ordem e a vivência na cidade/cidade estado (pólis).

o        “No sentido lato e etimológico [...] a vida coletiva num grupo de homens organizados”. (LALANDE,1999, p.822.)

o       “Sistema de regras respeitantes à direção dos negócios públicos. Arte de bem governar os povos”. [4]

Na obra Ética a Nicômaco[5], Aristóteles (384-322aC) [6] aborda a ética e a política visando o caminhar em direção ao sumo bem, a felicidade. Uma linha de pensamento é traçada para estabelecer que homem, o animal racional, baseado nas conclusões alcançadas por meio da razão, formula sua ética pessoal, essencial para a felicidade individual e familiar. O homem, enquanto cidadão do pólis e participante da política que norteia a vida do seu habitat social, da cidade, é comparte na definição e sujeito à ética coletiva que prioriza o bem comum quando surgem conflitos entre essa e sua ética pessoal. Oliveira e Trotta (3.1 p.42 e 44) [7] fazem a seguinte observação:

Segundo o entendimento de Aristóteles, a política é ciência da felicidade humana, uma ciência prática que busca o conhecimento como meio para a ação e que se divide em ética e política. A felicidade, em seu modo de ver, significa certa maneira de viver específica do homem, ser social por natureza, destinado a desenvolver suas potencialidades na vida em sociedade. O objetivo dessa ciência é refletir sobre as formas de governo e as instituições políticas capazes de assegurar o bem comum. [...] Esse pensador assinala que o cultivo da inteligência é o bem supremo, o summum bonum, logo sua concepção ética é denominada de ética das virtudes ou ética eudemônica[8], isso porque enfatiza a busca pelo bem viver e pela felicidade, no sentido estrito de pleno desenvolvimento das disposições naturais. O homem deve desenvolver suas aptidões para alcançar o seu fim (télos), sua perfeição, por isso que eudemonia e télos[9] estão intrinsecamente ligados, formando uma ética imanente da felicidade terrena, portanto, política.

Aristóteles afirma que a reflexão e o pensamento (o filosofar) são insuficientes em si para assegurar a felicidade. É na prática da política na vida cotidiana da cidade que as conclusões filosóficas da razão e o desenvolvimento da ética têm seu valor, mas somente quando resumidos em ações e atitudes que proporcionam todos os cidadãos a possibilidade do viver feliz.

2. A RELAÇÃO ENTRE RAZÃO E MORAL NA MODERNIDADE.

Os pensadores da Racionalidade Moderna, começando com Descartes[10] quebraram os paradigmas que regulavam o pensamento filosófico até o século dezessete formando novos conceitos e novas maneiras de encarar o mundo pela ótica da razão. A famosa frase do Descartes “Penso, logo existo” declara o pensar de ser uma atividade racional, indicando assim que a humanidade entrou na idade da razão e, portanto, tem a capacidade de encontrar as respostas dentro de si sem a necessidade de buscar o conhecimento em religião ou outras fontes externas.

A moral (ética) estabelecida na base da razão é marca registrado da modernidade. Conforme LALANDE (1999 - p.705) Moral é uma “teoria arrazoada do bem e do mal, Ética. A palavra, neste sentido, implica sempre que a teoria em questão visa conseqüências normativas [...] ‘formei para mim uma moral provisória, que consistia apenas em três ou quatro máximas’ (DESCARTES – Discurso do Método – III.I)”.  MARCONDES[11] (2007- p.93-95) conclui que Kant[12], “um dos mais influentes pensadores da ética no período moderno”, dentro de sua exposição da razão prática propôs uma “ética de princípios” e que essa ética, ou moral, responde ao segundo dos quatro problemas (questões) centrais da filosofia – o que devo fazer?

Kant estabelece as Máximas que são limitadas à vontade e às convenções do indivíduo e os imperativos que são por sua vez divididos em duas categorias:

Os “imperativos hipotéticos” – padrões que se aplicam a determinados objetivos.

Ex. “estude se quiser ser bem avaliado” [13] e,

Os “imperativos categóricos”, ou seja, o dever moral, cuja fonte de força é a própria razão e que não dá espaço às exceções.

Trata-se, de fato de uma lei universal [...] anunciado na Crítica da Razão Prática [...] ‘age de tal forma que a máxima de tua vontade possa valer ao mesmo tempo como princípio de uma lei universal’ (1973, p 223). Segundo este imperativo, para considerarmos como moral uma determinada ação, teríamos de poder aplicá-la em qualquer circunstância,” [14]

 

A razão e a moral estão intrinsecamente ligadas na Modernidade, é justamente o pensamento racional que permite a formulação de uma moral objetiva desvinculada da imaginação e capaz de trazer verdadeira liberdade ao homem. O paradoxo deixado por Kant é que a sujeição à lei moral é liberdade!

CONCLUSÃO:

A unidade entre ética e política, tão central à filosofia da Antiguidade, foi desmontada num processo que começou com Maquiavel[15] e concretizou-se, na Modernidade, na Razão Prática de Kant.  A ênfase da política mudou, priorizando o poder do estado, as ditas ações “Maquiavélicas”, tomando o lugar da busca do bem comum.  O pensamento Ético, a Moral, se distanciou de suas raízes na busca de um ideal supremo e externo na procura de estabelecer o dever moral interno baseado unicamente na razão.

Aristóteles via na Ética, o ambiente dentro do qual o homem vive e o conjunto de suas ações, como sendo estreitamente ligada à Política, ou seja, à discussão e à vivência na pólis. Essa ligação foi rompida na Modernidade pela mudança de foco e direção no pensamento filosófico.  Se por um lado tudo na Antigüidade levava o homem em busca do sumo bem, a felicidade no contexto do cenário político da vida na polis, o pensamento da época moderno rumou em direção oposta. Para definir essa mesma busca pela realização humana, a felicidade, o enfoque muda para, de um lado, a necessidade da existência de um estado forte com governantes poderosos e, do outro lado, para a formulação de uma ética individual que permite que o homem reja sua própria vida livre da dependência das influências externas.

Assim, se promoveu nessas duas épocas determinantes do pensamento filosófico, uma “mudança do endereço” radical no que diz respeito ao estabelecimento da Moral. O processo que foi, no pensamento Platônico e Aristotélico, a responsabilidade da comunidade como um todo, com suas raízes na política ou vida em comum da pólis, tornou-se a responsabilidade individual, racional e, por vezes, egoísta, de cada indivíduo.  O modo de viver da Modernidade, base da sociedade na qual vivemos, tem suas raízes no conceito que cada homem deve formular sua própria Moral (código de conduta) e alcançar a felicidade vivendo de acordo com as normas estabelecidas.

Na vida da Pólis idealizada na Antigüidade, em caso de conflito de interesses, o interesse do bem comum prevaleceria sobre o bem do indivíduo; na Modernidade, o bem do individuo tem a supremacia. O pensamento racional da modernidade, vista por alguns como sendo o mais realista, marca uma vitória para o individualismo e a derrota do conceito de que a felicidade da comunidade é o bem comum e, portanto, a felicidade de todos!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

  1. ARISTÓTELES – Ética e Nicômaco – Editora Martin Claret 2007 – Tradução Pietro Nassetti
  2. AUDI, Robert - Dicionário de Filosofia de Cambridge – PAULUS 2006 - 2ª edição.
  3. BARAQUIM e LAFFITTE - Dicionário Universitário dos Filósofos – 1ª ed. 2007 – Editora Martins Fontes.
  4. DESCARTES, René – Discurso do Método (Versão Eletrônico)Tradução de: Enrico Corvisieri http://br.egroups.com/group/acropolis/ .Acesso em 17.05.2008. Créditos da digitalização: Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia)
  5. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda - O Dicionário da Língua Portuguesa – 3ª ed. 1999 - Novo Aurélio Século XXI.
  6. GOBRY, Ivan – Vocabulário Grego da Filosofia – São Paulo, Martins Fontes 2007. Tradução de Ivone C. Benedetti.
  7. LALANDE, André – Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia – São Paulo, Editora Martins Fontes 3ªed.1999.
  8. MARCONDES, Danilo – TEXTOS BÁSICOS DA ÉTICA – De Platão a Foucault – Rio de Janeiro, Editora JZE, 2007.
  9. OLIVEIRA, C. M. B. e TROTTA, W. – A Dimensão Política Segundo Platão e a Crítica de Aristóteles. http://www.achegas.net/numero/32/clara_e_trotta_32.pdf. Acesso em 17.05.2008

 Notas:

[1] Cambridge, 2006, p.793.

[2] Ibid p.794

[3] Extraído do material da tele-aula do Professor Daniel Pansarelli – 13.05.2008

[4] Aurélio, 1999, p.1599.

[5] Das três obras sobre a ética atribuídas ao Aristóteles esta é a que se tem maior certeza da autoria.

[6] Nascido em Estagira, Macedônia, foi morar em Atenas em 367 aC onde se tornou discípulo de Platão. Depois da morte de seu mestre morou em Eólida e Lesbos. Procurando um tutor para seu filho Alexandre (o Grande), Filipe de Macedônia o chamou à corte em 343 aC . Em 333 aC retornou a Atenas e fundou o Liceu dedicando assim seu tempo ao ensino e à produção de seus livros. Na morte do Alexandre o Grande em 323 aC refugiou-se em Cálcide onde morreu.

[7] A Dimensão Política Segundo Platão e a Crítica de Sócrates

[8] FERREIRA 1999 - Doutrina que admite ser a felicidade individual ou coletiva o fundamento da conduta humana moral.

[9] GOBRY 2007 - Sentido usual: término, acabamento. Sentido filosófico: causa final.

[10] Descartes, René (1596-1650) filósofo denominado Pai da Modernidade - nascido em La Haye, França, em 1616 formou-se em direito e, depois de seguir carreira militar na Holanda e Alemanha, período em que viajou extensivamente na Europa, finalmente se instalou na Holanda (1628) onde permaneceu durante 20 anos, dedicando-se a Filosofia. Terminou sua vida na corte da Suécia como professora da Rainha Cristina. Entre suas obras mais famosas: Discurso do Método (1637) e Princípios da Filosofia (1644).

[11] Textos Básicos da Ética – De Platão a Foucault

[12] Kant, Immanuel (1724-1804) filósofo denominado o grande pensador da Modernidade, nasceu em Königsberg, Prússia Oriental, numa família modesta. Formado em filosofia pela universidade de sua cidade natal , deu aulas para se sustentar, em 1770 ocupa a cátedra de Metafísica e Lógica tornando-se celebridade por causa de seus escritos e nomeação para a Academia de Ciências de São Petersburgo. Ele nunca se casou e sua vida regrada foi totalmente dedicada à pesquisa e ao estudo. Entre suas obras mais famosas – A Critica da Razão Pura (1781) e Crítica da Razão prática (1788).

[13] PANSARELLI, Daniel – Logos e Práxis – Ética Moderna: moral e extra-moral – p.88

[14] Ibid. PANSARELLI, Daniel

[15] Maquiavel, Nicolau (1469-1527) – Nasceu em Florença, membro de uma família nobre, é conhecido por ter ajudado os franceses a derrubar a casa de Médici, estadista foi o primeiro filosofo expoente do realismo político.

Um comentário:

  1. Olá, Joan!
    Já sou um seguidor de teu blog! rs
    Gostei do que li - e espero encontrar, sempre, novas coisas para ler por aqui...
    Um forte abraço,
    M.

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